Se a Liberdade tivesse dono, era uma ditadura.

O 25 de Abril de 2016 será recordado como o primeiro em que Marcelo Rebelo de Sousa é Presidente da República Portuguesa. Neste dia, Marcelo disse “Falta cumprir Abril” e “Há muito que foi cumprido mas há muitíssimo que falta ainda cumprir”.

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Não me ocorre melhor pensamento para a população gavionense. População esta, ostracizada no interior português, em que 42 anos de liberdade não chegaram para dar uma liberdade que todos anseiam, a liberdade de escolha de um trabalho, de uma profissão. Ninguém é verdadeiramente livre se não obtiver a sua fonte de rendimento de forma independente. Não há almoços grátis. Aqui, em Gavião, falta cumprir Abril. 

 

Nestes 42 anos os autarcas locais construíram acessibilidade, infra-estruturaram o território, dotaram-no de equipamentos públicos (alguns até dimensionados para uma população que à data da sua inauguração não existia, muito menos agora se prevê que exista por exemplo para os próximos 42 anos). Porém, e curiosamente, faltou-lhes o anseio ou a vontade da criação de postos de trabalho fora da esfera do estado mas talvez não seja assim tão inocente essa situação.

 

Existe um controlo "totalitário informal" por parte dos órgãos autárquicos vigentes nos serviços públicos nacionais prestados localmente, por meio de uma teia de ligações familiares factuais e de todos conhecida entre os gavionenses. Este tipo de relações, que existem noutros concelhos e não só no de Gavião, citando alguns historiadores e sociólogos nacionais é apelidada de "nova burguesia política", analogamente faz-nos lembrar logo o paradoxo do "novo rico". E esta classe social criada artificialmente com o dinheiro dos impostos de todos nós, indubitavelmente sufoca o cidadão comum a evoluir pois o lugar foi predestinado a alguém (alguém que até pode ainda não ter acabado o curso). Como alguém dizia outro dia "aburguesaram-se" e agora são "donos disto tudo".

 

Uma sociedade que não deixa os melhores chegarem à governação, é uma sociedade doente, oncologicamente doente. Tipicamente, de tempos a tempos há um limpeza provocada por um elemento exterior, e assim foi nas "Uniões" das juntas de freguesias assinadas no memorando da troika pelo PS e depois executado pela governação PSD-CDS. Não tenho muitas dúvidas se daqui a 5 a 10 anos ocorrer uma nova intervenção financeira ao Estado Português (e isso pode de facto acontecer), pode dar-se que o concelho de Gavião corra riscos de ser "fundido" num outro. A acontecer, a estratégia de "controlo" populacional pode ser repentinamente e radicalmente "dura" para estas famílias que se aburguesaram com o "poder" e não têm uma ocupação fora da esfera do Estado, não tem um trabalho, dito por palavras mais simples.

 

A população remanescente em concelhos do interior como é o caso de Gavião face a esta solução radical, irá acelerar o processo de migração "aldeia-sede do concelho", "sede do concelho-cidade mais próxima", "cidade-área metropolitana de Lisboa ou Porto" e o destino final será, como foi sempre a "emigração". Aliás, num levantamento informal a gavionenses nascidos entre 1980 e 1985 conclui-se que 7 em cada 10 já vive (trabalha) fora do concelho de gavião. Quer isto dizer que por muito que se apoie a natalidade (entre os diversos exemplos de apoios sociais), e é positivo que os autarcas o façam, FALTA CUMPRIR GAVIÃO, porque só o trabalho dá esperança e possibilidade de usufruir desta qualidade de vida fantástica que se vive, aqui, em Gavião. Neste aspecto, desde 2009 que o PSD de Gavião tem em cima da mesa, uma proposta para criação de um centro nearshore para que se instalem empresas de prestação de serviços à distancia, como por exemplo um callcenter. Pode parecer pouco mas para quem pouco tem muito lhe seria. Felizmente, com um novo presidente, em 2014 a proposta foi inscrita no orçamento municipal para 2015 ainda que em 2016 não tenha sido materializada fora do papel.

 

Nos últimos anos, como todos os cidadãos fui afectado pela crise. Porém, e porque foi a primeira pela qual passei enquanto "trabalhador" procurei reflectir no que a minha vida poderia melhorar com esta situação para futuro. Percebi que tinha de ser mais humilde e considerar bem os meus gastos, por outro lado deveria dar mais enfoque à felicidade das pequenas "coisas", "coisas" estas que normalmente não são de "consumo imediato". Um bom exemplo é por exemplo trocar o "sair à noite" num fim de semana para ficar em casa a ler. A sociedade no geral deveria ter apreendido algo com a crise, e não tem de ser necessariamente este exemplo que dou.

 

Mas não. O que sinto e vejo, é que no geral (e esquecendo se estamos a falar componente local ou não), não aprendemos nada. O poder politico actual (independentemente do nível) continua a embriagar o povo com festas e festanças, não há fim de semana que não haja esbanjamento de dinheiros públicos para saciar vários pecados capitais como a "Avareza", "Luxúria" ou a "Soberba". Aliás a igreja dominante, a Católica, que apesar de sabiamente estar a ser gerida pelo Papa Francisco numa abertura fantástica à sociedade, não é isenta de culpas e contribui mais para um paganismo religioso do que para a promoção da leitura das "escrituras", facto que na minha modesta opinião, deveria ser invertido. Mas o objectivo é claro, desviar dos cidadãos as atenções do que é essencial, que não há criação de emprego, e por conseguinte a distribuição de riqueza não acontece, logo o fosso social entre a "classe trabalhador" e as restantes como aquela que a título de exemplo já referi, os "novos políticos aburguesados" aumenta a olhos vistos.

 

Panem et circenses

 

Curioso que sou de expressões latinas não poderia deixar de citar "pão e jogos". Basicamente a expressão surgiu no final do Império Romano, no período da sua decadência, dado que para o Império foi opção política distrair os cidadãos por forma a evitar ter de gerir uma revolta ou insubordinação, que no fim do dia, a título de exemplo nos tenha deceptado. Que frase mais atual para a sociedade portuguesa. Damos tudo a todos para distrair o máximo destes enquanto puder-mos, e no fim alguém diz "o próximo que feche a porta".

 

Enfim, e porque a reflexão já vai longa gostaria de dizer que este texto foi escrito, da forma como foi, porque eu vivo em plena liberdade de expressão.

 

Agradeço convictamente a quem permitiu eu poder ter este direito e termino citando uma máxima da Juventude Social Democrata "Se a Liberdade tivesse dono, era uma ditadura.".

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publicado por Paulo José Matos às 23:59 | comentar | favorito