Sá Carneiro

 

30 Anos | 4 dez 1980 | Homenagem a Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa

Discurso de Carlos Carreiras, Presidente do Instituto Francisco Sá Carneiro:


Senhor Presidente do CDS-PP,

Senhor Presidente do PSD,

Se me permitem, caros amigos Paulo Portas e Pedro Passos Coelho, muito nos honra a vossa presença,

 

Caras e caros convidados,

Minhas senhoras e meus senhores,

Permitam-me que a primeira palavra seja para com os familiares de Francisco Sá Carneiro, Adelino Amaro da Costa, Snu Abecassis, Manuela Amaro da Costa, António Patrício Gouveia, Jorge Albuquerque e Alfredo de Sousa.

Muitas vezes esquecemos que estes eventos públicos, estas incontáveis palavras e homenagens públicas, são também o reavivar de profundos sentimentos e de memórias pessoais.

Uma segunda palavra ao Instituto Adelino Amaro da Costa, na pessoa do seu presidente, Salvador Correa de Sá, a quem quero publicamente agradecer a colaboração conjunta e associação a este momento, inédita nestes trinta anos.

Lembrar Camarate é, normalmente, falar de passado, de um passado que nos transmite uma profunda saudade.

Uma profunda saudade e uma profunda revolta, porque, é minha forte e profunda convicção, de que o passado não está encerrado enquanto não estiver totalmente reposta a verdade sobre tão brutal atentado que assassinou covardemente sete vítimas, entre elas, o primeiro-ministro e o ministro da defesa de Portugal.

Ainda é tempo de repor a verdade histórica, a verdade moral, a verdade dos homens.

Temos inscrito do nosso código genético, a cultural tendência de chorar o passado, chorando o futuro.

Temos por adquirido o amanhã e damo-nos condenados ao destino.

Ao nosso fatalismo chamamos-lhe fado.

Trinta anos depois quisemos fazer algo diferente.

Quisemos falar sobre futuro.

Foi esse o trabalho que, durante os últimos meses, desenvolvemos com o Instituto Adelino Amaro da Costa.

O pequeno excerto do trabalho que hoje apresentamos é a parte mais visível de horas e dias de pesquisa e de recolha de depoimentos que percorreram dezenas de cenários, sem constrangimentos políticos ou preconceitos ideológicos.

Reunimos uma dezena de personalidades e de tudo o que foi dito, guardo as sábias palavras de António Pinto Leite: “Sá Carneiro era um homem que sonhava com um país normal”.

Nem mais, nem menos que isso: um país normal.

Pode parecer pouco. Especialmente quando falamos de um político. De um primeiro-ministro.

Mas se pensarmos nos últimos trinta anos, então a normalidade é um objectivo ambicioso. Muito mais ambicioso do que julgaríamos.

Nos últimos trinta anos habituamo-nos a considerar a excepção como regra, o extraordinário como costumeiro e a falta de normalidade como vulgar.

Todos os dias somos confrontados com a excepção, com o extraordinário e com o pouco normal. Banalizamos tudo.

Achamos normal ter um estado que é mais parte do problema que da solução.

Achamos normal ter um país que se endivida sem criar riqueza.

Achamos normal um País que quer defender a todo o custo o Estado Social, sem conseguir garantir a Função Social do Estado

Achamos normal a perda de soberania e sermos condicionados e censurados pelo nossos parceiros internacionais.

Achamos normal o absurdo défice de confiança, que se alimenta de escândalo após escândalo, até que os escândalos nos deixem de escandalizar porque simplesmente achamos, tudo normal.

E na loucura dos dias esquecemo-nos do bom que seria, do extraordinário que será, apenas e só, ser um país normal

Cada hora, cada dia, cada ano que passa não é só a economia que enfraquece, não são só as finanças públicas que se esgotam.

Acima de tudo, esgota-se a vontade de um povo, desperdiçam-se as forças de um País e do melhor que há em nós.

São as pessoas que se vão habituando à falta de normalidade.

Deixam de se escandalizar.

Deixam de se indignar.

Banalizámos a anormalidade.

 

Senhor Presidente do CDS-PP

Senhor Presidente do PSD

Senhoras e senhores,

 

Assinalámos os trinta anos de Camarate tentando responder à pergunta que se repete vezes e vezes sem conta: e se o avião tivesse chegado ao Porto.

Mas a verdade é que por muitas teses, por muitos trabalhos, por muitas entrevistas e edição de livros. Nunca teremos uma resposta.

Nunca o saberemos.

Sabemos porém o que estava escrito.

Reler os discursos, textos e artigos de Francisco Sá Carneiro, é assustador, é chocante, é revoltante, porque muitos deles podiam ter sido ditos e escritos, ainda ontem; ainda hoje.

Tal é a sua impressionante actualidade.

Percorrer agora o então programa da AD é também revisitar questões antigas que ainda hoje, passados 30 anos, estão por resolver.

Temas actuais que já o eram há trinta anos atrás.

Problemas que ficaram sem solução.

É nossa convicção que o país seria bem diferente.

Só não sabemos o quão diferente seria. Quanto tempo perdemos. Uma, duas, três décadas? Nunca o saberemos.

Sabemos porém que Francisco Sá Carneiro foi primeiro-ministro num momento extraordinariamente difícil da história do país:

Um estado incapaz de acorrer à gravíssima situação social, profundas dificuldades financeiras que tinham justificado a intervenção do FMI.

Governos que não governavam e a inevitável instabilidade política.

Neste cenário Francisco Sá Carneiro esteve longe de ser um líder popular. Pelo contrário. Foi vilipendiado pela oposição, ferozmente criticado pela imprensa, contestado dentro do próprio partido.

Sá Carneiro não prometeu felicidade. Pelo contrário.

E, ao contrário do que seria de prever, foi no país real que encontrou a sua base de apoio. O país real que, melhor que ninguém, entendia o que tinha de ser feito.

O país real sempre quis ser um país normal.

Sá Carneiro e o governo AD trouxeram, num momento muito difícil da nossa história, um sinal positivo. Um sinal de esperança. Um sinal de futuro.

Um sinal que não está só nas palavras, nem apenas nas decisões, mas na atitude diferente de fazer política.

Uma politica que crie confiança, que motive, que galvanize.

Uma politica que defina uma missão, uma estratégia.

Um desígnio nacional.

Uma politica de convicções.

Tal como há trinta anos, Portugal continua, a precisar de políticos como Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa, que com as suas capacidades, o seu talento, a sua vontade e inconformismo, acreditaram em Portugal.

Acreditaram em Portugal e nos Portugueses.

Os seus exemplos, hoje presentes em todos nós, são o principal legado que Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa nos deixaram.

Hoje é necessário dizer a Portugal e aos portugueses que a situação em que estamos, não tem de ficar neste fatalismo, de nos habituarmos a não sermos um País normal.

Temos de voltar a mobilizar a sociedade portuguesa, do centro direita à esquerda reformista, da democracia cristã à social-democracia.

Falta cumprir Portugal.

Todos estamos convocados, todos somos chamados,  a seguir o exemplo de dois Grandes Patriotas, Francisco Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa.

Que as suas vidas sejam para todos nós um factor de inspiração e de dedicação a Portugal, que bem precisa, que bem precisamos.

publicado por Paulo José Matos às 23:00 | comentar | favorito